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Injustiça social e fome

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Otávio Mangabeira (espírito)

Adaptação

Entre as calamidades que, periodicamente, assolam a Terra, destaca-se a fome como remanescente do primarismo evolutivo na área social em que se encontra a criatura humana.

Em uma sociedade civilizada, na qual alguém morre pela fome, o respeito à vida e à dignidade humana desapareceram por completo.

Numa sociedade justa não poderia manifestar-se com a rudeza destruidora o espectro da fome, porque o mínimo direito que tem o cidadão é o de alimentar-se.

Mais cruel ainda se apresenta o fenômeno da fome, quando se a pode prever, e, naturalmente evitar, ou, pelo menos, tomarem-se medidas que lhe diminuam a gravidade, atenuando as conseqüências terríveis do rastro de destruição que deixa.

Não apenas é hedionda a morte pela fome, como também são os efeitos lamentáveis dela decorrentes, quais a carência de nutrição do organismo, expressando-se através de problema mental, emocional e orgânico.

O indivíduo com fome torna-se violento e agride, qual ocorre com o animal que sai, esfaimado, à caça, sendo pior naquele que vê a família em estertor agônico, entre a alucinação e o crime, por absoluta falta de pão.

Demonstração de impiedade incomum é a presença da fome na Terra, porquanto o excesso que é desperdiçado daria para minimizar o fantasma do desespero de milhões de criaturas relegadas ao abandono e à morte.

As providências de emergência são úteis, sem dúvida, tendo porém um caráter mais de libertação de consciência de culpa, do que mesmo de socorro às multidões desorientadas, cujas fácies desfiguradas assustam os que dormem dementados pelo poder e dissociados da responsabilidade de cumprir com os deveres para com aqueles que os elegeram para as altas funções administrativas, nesse momento temendo que os famintos os derrubem da posição que desfrutam...

Com exceção dos ditadores, que sempre governaram com a criminosa adaga da discriminação, reservando celeiros abastecidos para os soldados que os preservam no comando, tornando-se execráveis, os Chefes de Estados Democráticos têm o dever de evitar a fome ou de recorrer a métodos e técnicas que lhe diminuam os efeitos danosos.

Uma sociedade justa é aquela que vela pelos seus membros mais necessitados, contribuindo com os recursos para elevar os seus cidadãos, oferecendo-lhes as condições a que fazem jus, desde a conquista dos direitos humanos após a Revolução Francesa de 1789, quando a hediondez e a perversidade governamental cederam lugar à liberdade, à fraternidade e à igualdade.

Permanecem, no entanto, ainda hoje, várias condições equivalentes àquelas que os filósofos da Revolução tentaram reverter, e para cujo desiderato alguns deles deram o sangue e a vida, sonhando com o dia em que todos os seres humanos pudessem usufruir de, pelo menos, alimentos, habitação, educação, trabalho, saúde, recreação, que ainda lhes são negados...

Seria este o momento de parafrasear Madame Roland, a célebre jacobina guilhotinada, quando, antes da morte, exclamou: — Liberdade, liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome!

Agora diríamos: — Democracia, Democracia, quantos crimes se cometem em teu nome!

Em uma sociedade livre e competitiva, não se deve apenas dar alimentos durante as situações calamitosas, mas sim, criar condições para que eles existam e sejam conquistados dignamente, ao invés de oferecidos como esmolas ou ações caridosas, em cujas oportunidades as mesmas se transformam em bandeiras políticas ou estribilhos de exaltação religiosa, exibindo os miseráveis à compaixão social, quando todos merecem, em vez disso, respeito e oportunidade.

A indústria da fome, por outro lado, tem sido mantida para auxiliar indivíduos ignóbeis, que dela se utilizam para ilusórias promessas eleitoreiras periódicas, quando se afirma que será prontamente eliminada.

Conseguidos os fins almejados, porém, a máquina do desinteresse pelo povo continua mantendo-a, a fim de estar ultrajante e mais grave em próxima oportunidade.

Não vige, realmente, nesses indivíduos, a presença de Jesus Cristo, embora alguns se digam vinculados ao Seu pensamento - e dEle se utilizem para discursos que iludem o povo - que, não obstante estivesse pregando o reino dos Céus na Terra, providenciou pães e peixes para atender fartamente a fome daqueles que, em dado momento, O seguiram...

Dramas como o da fome, o do retorno de determinadas doenças consideradas em fase de extinção, atestam a inferioridade da Terra, mas somente porque os seus habitantes se encontram em estágio primitivo de evolução.

Dia, porém, virá, e já se anuncia, no qual, o homem despertará em definitivo para a mudança do seu comportamento em relação ao próximo, particularmente aquele que assume a governança dos povos, conduzindo altíssima responsabilidade perante a própria consciência, como perante a Consciência Cósmica, de que não se evadirá.

Demonstração de impiedade incomum é a presença da fome na Terra

(Página psicofônica recebida pelo médium Divaldo P. Franco, na reunião da noite de 6 de maio de 1998, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia.)

(Jornal Mundo Espírita de Junho de 1998)