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Manifesto da Eko Porã - Festival da Primavera - Arte, Cultura, Política

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Foi assim: o grande deus Ñanderu viu que era preciso refazer o mundo que havia sido destruído pela água. Mandou, então, seus filhos, Kuaray (o sol) e Jacy (a lua), para criar o segundo mundo, esse em que vivemos. A missão dos filhos de Ñanderu era criar uma terra livre, que fosse de todos, dividida conforme as necessidades, cheia de flores e frutos para serem repartidos. E Kuaray e Jacy deveriam garantir que na Tekoá, a terra de todos, a vida fosse Eko Porã, ou seja, vida boa e bonita para todos.


Com a chegada dos brancos europeus nas terras de Pindorama, milhões de seres foram destruídos, povos inteiros foram massacrados e muito da cultura primitiva se perdeu. Os povos híbridos que vieram depois incorporaram outras histórias, outras tradições, outros deuses. Mas, a despeito de tudo, Kuaray e Jacy continuam a nos olhar com seus olhos mansos apontando o caminho da Eko Porã. O povo Guarani Mbyá, originário deste nosso pedaço de chão, não esqueceu seus deuses nem seus mitos e é neles que nos sustentamos agora para iniciar nossa saudação ao sol e à primavera.

 


Celebramos a vida sempre no equinócio de primavera, momento em que o tamanho do dia é exatamente igual ao da noite. Equilíbrio, harmonia do cosmos. É quando que se comemora o início da primavera, hora do florescer, da criação, do nascimento. Por isso, escolhemos este dia para vislumbrar um processo de quebra do sistema capitalista, na busca da Eko Porã. Parece uma coisa pueril e boba, mas não é. Faz muito tempo que as gentes discutem e analisam esse jeito maligno de organizar o mundo. Acreditamos que basta de fazer análises. É hora de sermos profetas, ou seja, viver aqui e agora o mundo que queremos construir.


A festa da Eko Porã tem esse caráter. Nela, propomos um jeito de viver que é o da partilha, da fraternidade, da ternura, do amor pelo outro – o caído, o pobre -, da troca solidária. Aqui, começamos a fazer real um outro jeito de ser no mundo. Sabemos que é coisa difícil tirar da nossa vida a sede pelo dinheiro, o consumo desenfreado. Mas não é coisa impossível. Todos os que vierem saudar o início da primavera precisam estar dispostos a trocar seus talentos por coisas outras que não a grana. Isso é coisa de poucos, é certo. Mas não de loucos!!! Somos poetas, profetas, visionários. Estamos dando o primeiro passo.


A caminhada é longa, o destino incerto, mas estamos dispostos a abrir, com nossos corpos, corações e mentes, uma nova trilha para a humanidade. Caminhamos como nossos irmãos Guarani, em busca da terra sem males, que não tem dono, que é de todos. Quem quiser sonhar esse sonho e juntar-se a nós para fazê-lo real, que venha. Sem medo. Sem dúvidas. Porque nada no mundo pode ser melhor que caminhar na direção da beleza, da vida plena, da alegria, da Eko Porã. Em meio à tormenta, cantamos, dançamos e plantamos jardins porque confiamos, como Jeremias, diante da sua terra arrasada, que ainda vingarão flores neste lugar...

Mário Cândido e Mouzar Benedito