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O Serviço de Orientação Educacional e a Orientação Profissional no Espaço Escolar

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O Serviço de Orientação Educacional (SOE) também deve realizar o trabalho de Orientação Profissional[1] muitas vezes chamado de vocacional.

A partir de uma maior conscientização de si mesmo, os estudantes poderão tomar decisões mais embasadas diante da variedade de opções profissionais. Cada estudante terá acesso às informações sobre as profissões existentes no mercado e serão analisados os seus interesses, potencialidades e limitações.

O adolescente em processo de escolha necessita refletir a respeito de seus sentimentos, interesses e gostos. Precisa aprender a filtrar as informações que vai reunir ao pesquisar as profissões e, num processo de exclusões sucessivas, chegar à profissão que melhor se adeqüe ao seu perfil.

Necessita ainda,  aprender a planejar e idealizar seu projeto de vida já que os homens, dentre todos os animais, são os únicos capazes de preconceber o que vão realizar. Esta capacidade, juntamente com a criatividade inerente, fez e faz com que se dêem respostas novas aos novos empecilhos que, natural ou culturalmente, surgiram e surgem em sua caminhada (BIANCHETTI (1996, p. 77)”. A escolha da profissão é, naturalmente, uma nova resposta a um tempo de sua vida: o vestibular. O adolescente precisa se conhecer e saber quais as perspectivas para o futuro. Ter a capacidade de se imaginar numa atividade profissional exercendo-a daqui há 10 anos, por exemplo. Para isso, precisa ter em mente que a melhor decisão é a que leva em consideração o maior número de variáveis. O trabalho de Orientação Profissional no espaço escolar deve levá-lo a questionar uma escolha baseada em poucos indicativos. Decisões com base em “vou seguir os negócios da família”, ou optar por tal profissão só porque meu pai gostaria que eu fosse e “não quero desagradar minha família” ou, até mesmo, “porque tem bom mercado” têm levado a escolhas equivocadas com o conseqüente abandono do curso. Isso tem contribuído para engrossar a fila dos 40% de jovens que, em média, abandonam o curso universitário pela metade.

A escola tem por função fornecer ferramentas efetivas ao ser humano,  o único vivente capaz de planejar cognitivamente suas ações. Estas ferramentas devem contribuir para o desenvolvimento do sujeito orientando-o, por exemplo, a encontrar respostas a perguntas do tipo: - Que vou ser no futuro?  - Que profissão vou abraçar?  - Onde fazer tal curso? - Para que fazer? - Como me informar sobre as tarefas das profissões?

Sabemos que “não é fácil decidir por caminhos que não temos a real noção de onde chegar nem o que atingir. Isso torna o processo angustiante, e extremamente difícil para o nosso adolescente (Pereira, 2000, p.167)”.  Diante de um momento de escolha, normalmente, o jovem passa por uma crise em função de suas dúvidas e conflitos psíquicos, principalmente porque depara-se, muitas vezes, com a dificuldade de uma tomada de decisão que entra em choque com seus próprios interesses e de seus familiares.  Ele não sabe exatamente o que quer ser, o que quer fazer da vida e está confuso quanto à sua própria identidade pessoal. Ter uma postura de adulto, nesse momento, é muito difícil, pois ainda não consegue elaborar as sucessivas perdas e os lutos pelo seu corpo e mente infantil.  Muitos jovens não conseguem fazer isso sozinho. Portanto, cabe a escola suprir essa necessidade oferecendo, pelo menos aos alunos do Ensino Médio, um trabalho de Orientação Profissional, numa linha pedagógica. Cabe ao orientador educacional ocupar esse espaço, organizar e executar essa tarefa junto aos alunos. Os estudantes que, apresentarem alguns entraves mais complexos na elaboração de seu processo de decisão, devem ser encaminhados ao profissional especializado para realizar a terapia vocacional.

Sabemos que o modelo de atividade a ser executado pelo OE vai depender do Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola na qual está inserido, mas também acreditamos que é possível construir um PPP delegando ao OE esse espaço e função.

Por esta razão, nos apoiamos em Pereira (2000) que coloca a Orientação Profissional como  atividade a ser desenvolvida junto aos alunos para propiciar

“novos meios de pensar a sua realidade, considerando as mudanças advindas do processo histórico da sociedade que vivemos e fazemos. Uma vez que passamos grande parte de nossa vida na escola, acreditamos que é nela que podemos investir, na intenção de fazer o aluno refletir sobre o significado do trabalho e pensar numa profissão em função de um projeto de vida.(p.165)”

Sendo a escola um espaço que possibilita essas  vivências e relações amplas, com certeza é também o espaço ideal para uma ação de Orientação Profissional em prol do desenvolvimento dos alunos.

Sabemos que a orientação profissional no espaço escolar

“efetivamente não prepara o aluno para o trabalho, mas busca a integração da proposta educacional a um pensar em função da relação do homem com o trabalho, das relações sociais do trabalho, das oportunidades do mercado profissional e das tendências futuras. Junto a esse pensar, objetiva ainda, fazer pensar o indivíduo que escolhe (PEREIRA, 2000.p.166).

E para pensar sobre sua escolha a “decisão por” precisa ser tratada como um objeto pedagógico a ser transformada em conhecimento pelo aluno.  A escola, que acredita nessa capacidade de aprendizagem, precisa dispor de atividades que favoreçam o desenvolvimento integral de seus sujeitos. Capacitá-los a contribuir para a sociedade como indivíduos conscientes de seu papel social, confiando que seu trabalho seja útil não só para a sua realização como pessoa, mas também, para grandeza do país.

AS POSSIBILIDADES  DA ESCOLA QUANDO REALIZA A O. P.

Normalmente as escolas que tentam auxiliar a escolha profissional do aluno utilizam como recurso a informação intensificada, combinada ou não com a aplicação de testes vocacionais. Proporcionam palestras de diferentes profissionais, em algumas semanas do ano letivo, que divulgam materiais e descrevem, exaustivamente, cada profissão. Tais informações são valiosíssimas, mas insuficientes para uma boa escolha.

Quando a escola possibilita ao aluno uma atividade de OP fora do seu horário de aula, como por exemplo, no horário contrário da atividade escolar, há uma inversão de papéis. A partir desse momento, não é mais a escola, o pai ou o teste que vêm até ele. É o aluno que se torna  protagonista de um grande momento. Começa a perceber que a escola tem um interesse tão grande quanto ele na sua felicidade, no seu futuro. Um interesse que vai muito além de ensinar, desejando integrar este ser tão complexo em todos os seus multi-aspectos.

Com a orientação adequada, o aluno passa a ter condições de tomar sua decisão com base no seu próprio referencial, e a visualizar uma carreira, internalizando sua escolha.  Quando isso acontece, a escola ganha um aluno mais compromissado com sua aprendizagem, tornando-o responsável, envolvido com sua meta e dando início ao seu projeto de vida.

Acreditamos que divulgar a Orientação Profissional na escola é um fator determinante para o seu bom funcionamento, pois mobiliza o jovem para esse tipo de trabalho. É vital lembrar que, por mais que ele deseje ser orientado, é um adolescente e, como tal, costuma postergar as suas ações. Assim como deixa para estudar para as provas na última hora, deixa também a sua escolha profissional para o último momento. Na verdade, o ideal seria que o adolescente concluísse a sua escolha no final segundo ano do Ensino Médio, mas nossa experiência tem demonstrado que somente os jovens mais maduros atingem essa meta.. A maioria participa do processo, mas sem se envolver a fundo nas questões, com a certeza que isso se resolve mais para frente. Muitos não têm consciência que o terceiro ano é muito desgastante pela angústia e ansiedade do vestibular e isso pode precipitar uma escolha mal feita, caso não esteja bem sedimentada, até mesmo pela influência das dificuldades advindas da relação candidato-vaga para as opções almejadas. O orientador profissional deve chamar atenção do adolescente para esse tipo de postura e auxiliá-lo na revelação de si mesmo.

É também papel do orientador ajudar o adolescente a encarar a frustração como algo inerente à vida, ensinando-o a aprofundar as informações e a tolerar os aspectos difíceis que toda escolha envolve. Toda decisão implica perder, e como nos diz Judith Viorst[2] as perdas são necessárias, são universais, inevitáveis e inexoráveis porque para crescer temos que perder, abandonar, desistir. Assim sendo, nosso jovem precisa crescer na direção das opções que precisará fazer ao longo de sua vida.


OS PAIS NO ESPAÇO ESCOLAR


No processo de Orientação Profissional os pais precisam ser envolvidos de forma integrada. Eles precisam ser chamados a dar a sua contribuição através de entrevistas ou relatos de suas experiências. Isso aumenta o sentimento de união e a  da importância que têm para suas famílias.

É importante que as famílias também conheçam da formação profissional, pois é dela que virá a validação de toda ação docente para com os discentes. Além disso, é fundamental ministrar palestras específicas para mostrar aos pais seus papéis no processo de decisão do filho. Lucchiari (1997) comprova o quanto é grande a influência da família na escolha da profissão dos filhos ao defender que de todas as interferências no processo de escolha, essa influência é que carrega maior peso, pois ela

responde a um conjunto de significações que são transmitidas aos jovens pela família. Estas significações estão ligadas à dinâmica e história familiar, freqüentemente transgeracional As representações das profissões realmente exercidas pelos membros da família (pais, avós, tios, primos) podem influir positiva ou negativamente na escolha do jovem (p.179)

Por essa razão, a autora sugere que os orientadores profissionais incluam o estudo da dinâmica familiar e de sua influência nas escolhas dos jovens para o aprimoramento de sua prática profissional. É de sua autoria a dinâmica conhecida como Genoprofissiograma[3]:  o Orientador constrói, com seus orientandos, a genealogia das profissões de seus familiares. Assim entende, muitas vezes, a origem de escolhas, permitindo analisar o peso dos fatores psicológicos, como também dos fatores sociais, culturais, ideológicos e familiares.

Uma maneira de trazer os pais para esse trabalho é aproveitar as reuniões pedagógicas para esclarecer esses aspectos e estabelecer uma parceria com as famílias.

O  CORPO DOCENTE NO ESPAÇO ESCOLAR: PARCEIROS DE UM MESMO PROCESSO


Outra tarefa, de fundamental importância, a ser executada pelo orientador profissional, é preparar o "corpo" da escola para que os alunos possam encontrar nos educadores (professores, pedagogos etc) um ponto a mais de apoio e equilíbrio na sua caminhada. Afinal, os professores já foram adolescentes e um dia já passaram por esses momentos angustiantes.

Para envolver o corpo docente no processo de OP é necessário apresentar a proposta e estabelecer com eles uma parceria. É preciso conscientizá-los da influência que exercem nos adolescentes com os quais trabalham e fazê-los entender essa geração apressada que, muitas vezes, quer tudo pronto.

Há necessidade de fazer trabalho de sensibilização com os docentes para estreitar essa parceria. O ato de contar sua experiência aos alunos já traz uma certa tranqüilidade aos jovens, pois mostra que é possível chegar  onde se pretende desde que se estabeleçam metas claras e ajam em função delas. As narrativas têm um importante papel na construção dos sujeitos.

AS CRIANÇAS E ADOLESCENTES NO ESPAÇO ESCOLAR: COMO CARACTERIZÁ-LOS


A geração que está ocupando o espaço escolar nesse mundo contemporâneo apresenta-se ansiosa, querendo resolver tudo de forma apressada e imediata, com um mínimo de envolvimento. Há uma nova designação para essa geração de jovens: a geração zapping[4], ou “fast food” que nasceu conhecendo o computador, os jogos eletrônicos, plugada no mundo das informações rápidas e globais.

Segundo Levenfus (2002) esses jovens estão acostumados a obter rapidamente as informações que desejam e  utilizam os eletrônicos com a maior “intimidade”, como se tudo fosse a coisa mais natural, mas com que profundidade compreendem ou utilizam as informações obtidas varia muito de jovem para jovem.

É notória a facilidade com que aprendem e trabalham com os avanços tecnológicos. Porém, nos momentos de escolha na vida, percebemos que não possuem um conhecimento bem construído, cristalizado, principalmente no que diz respeito a si mesmo e à realidade que os envolve.

A maioria dos jovens lida com a informação de forma superficial, pois ao se deparar com dificuldades ou algo que simplesmente os desagrade, tendem a se desencantar e sair em busca de outra informação mais interessante. Essa é, também, a maneira pela qual muitos jovens lidam com as angústias da adolescência. Ao mesmo tempo em que todas essas características se exacerbam nessa fase, o jovem encontra uma sociedade extremamente “dionísica”, consumista, que estimula o comportamento volúvel. Quando cessa o prazer, simplesmente partem em busca de outra novidade que pode ser um outro curso a fazer. Por isso, também,  a evasão tem crescido nas universidades.

A escolha profissional é um processo de construção, não uma descoberta mágica de algo escondido dentro do adolescente. Muitos deles, assim como seus pais, esperam que o orientador dê a palavra final, transferindo-lhe todas as responsabilidades de uma solução rápida e correta.

Elencar a profissão é apenas a primeira grande escolha de uma sucessão que o jovem terá que enfrentar ao longo de sua carreira profissional e pessoal. Depois surgirão escolhas com relação à área  dentro da profissão, local de trabalho,  especializações,  como se promover profissionalmente etc.

A Orientação Profissional deve“proporcionar formas de aquisições atitudinais e de auto-conhecimento que levem o nosso jovem a uma escuta da informação de maneira a mais aberta possível” (Lassance, 1999.p.22). Nessa escuta também estará a orientação sobre a impaciência, sobre o saber postergar, sobre a necessidade de participar intensamente e de forma profunda dos trabalhos desenvolvidos, uma vez que eles o ajudarão a vislumbrar seu projeto de vida, o seu futuro.

Projetar o futuro implica saber esperar por ele, pois todo processo de construção é lento e gradual, aspecto este difícil de ser tolerado pela geração zapping, que  é estimulada pela mídia e pela sociedade de consumo a posicionar-se de maneira imediatista. Para estabelecer um contraponto e tentar buscar o equilíbrio a escola precisa trabalhar essa geração para que aprendam a postergar desejos, a analisar variáveis em busca de um projeto maior, no qual inclui adotar o princípio da realidade ao invés de permanência no princípio do prazer, do gozo, do imediato.

Temos clareza que implantar um trabalho de Orientação Profissional no espaço escolar certamente é um desafio. No entanto, é muito gratificante observar a satisfação dos alunos e suas famílias, quando se chega a bom termo. Esse trabalho também poderia ser um diferencial para a escola.

Portanto, cabe a nós, orientadores educacionais, partirmos em luta pelo nosso espaço usando as ferramentas da competência, da visão de que “escola de qualidade tem orientador educacional”[5] fazendo também orientação profissional. Mas para isso é precisa que também haja orientador educacional lhe atribuindo a devida importância.

É necessária uma maior organização da “categoria” para “brigarmos” pelo nosso espaço de trabalho, estabelecendo uma nova prática em função de uma nova escola.

A orientação profissional deveria começar na escola desde os primeiros passos das crianças, observando suas habilidades demonstradas nos jogos e brinquedos, orientando os pais para essas potencialidades observadas. Mas isso será assunto para uma próxima oportunidade.

 


Referências Bibliográfica

BIANCHETTI, LUCÍDIO  Angústia no Vestibular – Passo Fundo: Ediupf,1996

GOMES, MARISE MIRANDA A Orientação Profissional no Espaço Escolas - facilitação da escolha numa abordagem sócio-interacionista. Dissertação de Mestrado ISEP/RJ, julho de 2004.

LASSANCE, MARIA CÉLIA Técnicas para o Trabalho de Orientação Profissional em Grupo-Porto Alegre: Ed. Universidade UFRGS, 1999.

LEVENFUS, ROSANE SCHOTGUES Geração Zapping e o Sujeito da Orientação Vocacional in Orientação Vocacional Ocupacional (org) Levenfus & Penna Soares,- Porto:Alegre:Artmed, 2002

LUCCHIARI, DULCE HELENA PENNA. S. Pensando e Vivendo a Orientação Profissional – São Paulo: Ed. Summus, 1993

PEREIRA, MARIA DA CONCEIÇÃO  O que a escola pode fazer – Um projeto de Orientação Profissional do Ensino Fundamental e Médio In Oliveira, Dubeux  Inalda (Org) Recife: UFPE, 2000.

ZABALA, ANTONI. A Prática Educativa: como ensinar. Porto Alegre: Artmed,1998

Marise Miranda Gomes - Pedagoga.Orientadora Educacional e Profissional. Psicopedagoga Institucional.  Mestre em Ciências Pedagógicas. Membro da ABOP (Associação Brasileira dos Orientadores Profissionais). Membro da ASFOE (Associação Fluminense dos Orientadores Educacionais) e membro fundador do GEOP (Grupo de Estudos em Orientação Profissional do Rio de Janeiro). Orientadora Educacional e Profissional do Centro de Educação e Cultura - CEC Barra no Rio de Janeiro


[1] Termo usado por Levenfus (2002) para designar os trabalhos que informam e orientam a respeito das profissões, do mercado de trabalho, aplicando técnicas de aprendizagem, sem aprofundar-se nas questões psíquicas do orientando que segundo ela deveria compor obrigatoriamente os currículos escolares, pelo menos do ensino médio “já que é notório o quanto a falta de informações redunda em escolhas equivocadas.(p.58)

[2] Perdas Necessárias. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2000

[3] É a construção de uma árvore genealógica com uma ênfase particular sobre as profissões das três últimas gerações.(Lucchiari 1997 p.141). Por ser gráfico permite uma rápida visualização de modelos familiares complexos. É a construção de “uma rede de relações que se forma em cada família, que está presente de uma maneira ou de outra nas diferentes escolhas que fazemos na vida, em especial na profissão a seguir”( p.135).

[4] Termo sugerido por Levenfus (2002) para caracterizar a juventude atual

[5] Expressão divulgada pela Revista  Prospectiva da AOERGS (Associação dos Orientadores Educacionais do Rio Grande do Sul, no 27 2002/2003

 

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